Bucolique
Desejoso vagabundo.

Queria eu escrever-te versinhos muito lindos,
mas as rimas não saem.
Queria eu desenhar-te em prosa,
mas palavras me faltam também.
Queria eu cantar meu Chico para ti,
mas as palavras não saem.

Queria eu cantar meus versos para ti,
mas minha voz falha.
Queria eu tocar minha gaita à sua janela,
mas coragem me falta também.

Queria eu escrever-te em versos,
mas sonetos não lhe cairiam tão bem.
Queria eu pincelar tuas formas num Monet,
mas as cores me fogem, meu bem.
Queria eu ter criado a bossa nova e,
para homenagear-te ser o maestro Tom.

Bárbara Luíza Krauss, maio de 2012. 

Branca como a neve.

A janela estática lutava contra a chuva que a atacava forte e fria, eu acabara de me banhar, a água quente relaxara meus músculos que agora se retesavam pelo fato de eu ainda estar nua frente a janela. Em meu peito também chovia, uma chuva rala e intensa, estava em casa com toda aquela batida constante. Levantei-me e fui em direção a janela aproximando-me cautelosamente, o medo e a ânsia de descobrir onde estava mais frio. Parei no meio do caminho e brinquei com meus dedos no carpete, encostei minhas mãos abertas no vidro da janela e voltei a caminhar em sua direção, mais lentamente dessa vez. Onde estava minha caixinha de música? Respirei fundo e encostei o bico de meus seios na janela, por sorte ou falta dela, meu corpo entorpeceu-se com o calor gélido que recebera da neve que repousava a muito tempo do lado de fora. Olhei mais de perto para o lado de fora e procurei por algo ou alguém, não saberia dizer por que ou quem. A melodia da caixinha ecoava em minha mente, onde eu a teria deixado? Esfreguei os pés com força no carpete, contrai-me com ímpeto contra o vidro e deixei que minhas mãos escorregassem e contornassem meus quadris e coxas, encostei a tez alva na estrutura branca de madeira da janela descansando as pálpebras cansadas. Onde estaria a caixinha com a bela bailarina a rodopiar incessantemente, estaria ela ainda dançando? Sorria a bailarina? E tentando me recordar do sorriso da bailarina me fui, branca, com a neve.

Bárbara Luíza Krauss, 2 de maio de 2012.

Ensaio beat aos canalhas.

Nós estávamos na sala conversando com a televisão desligada, no radio tocava alguma música famosa que Fiéjo conhecia de algum cantor fodido, que eu e Rocco com certeza chupávamos as bolas.
- Sabe, eu não sei o que eu prefiro xoxota ou patê de azeitonas. - mordeu seu lanche deixando cair a porra do patê no tapete.
- Caralho Fiéjo, não sei o que é pior, você sujar meu tapete ou trocar buceta por patê de azeitona. Cadê o Jack pra lamber essa porcalhada?
- Eu lamberia essa merda no chão se pudesse te chupar um pouco, boneca.
- Minha xota não tem gosto de azeitona, pelo menos disso eu tenho certeza Rocco.
- Posso checar se você não tá mentindo?
- Pro caralho com essas desculpas, você sabe que eu não faço nada com vocês, não sou que nem essas putas que te chupam com o cú espetado no Fiéjo.
- Você pode fazer o contrário, não se prenda a nada - sorriu.
- HÁ HÁ 
Eu estava quase bêbada quando a cerveja acabou, os dois haviam cheirado e eu não era muito de cheirar, e com certeza eu não treparia com nenhum deles, o que eles faziam aqui além de sujar meu tapete e talvez esquecer um pouco de pó na minha pia? Legal, agora Fiéjo começava a apertar meus peitos e beijar meu pescoço, sentei em seu colo e deixei que continuasse, não era tortura alguma e sempre era possível negar se sua 
mulher desconfiasse de algo.
- Rocco, vai comprar umas cervejas vai, e tente não trazer nenhuma gorda pra trepar aqui em casa.
Rocco pegou o dinheiro na mesa e saiu, Fiéjo já tentava entrar nas minhas calças então Rox apareceu, ela tinha dormido em algum canto da casa.
- Tem um cigarro?
- Só aquela viadagem de mentol do Rocco.
- Serve, passa aí.
Saí do colo de Fiéjo, agora ele teria alguém com quem trepar fácil, deitei no sofá com a bunda virada pra cima. Rocco entrou com as cervejas e me passou uma.
- Ella, suas coxas estão realmente no ponto
- São meio gordas - retruquei.
- Eu te comeria fácil.

Misantropia destilada.

Pelas ruas estreitas da velha metrópole inglesa vago a olhar para os túrgidos rostos a me encarar com desdém. Criaturas prepotentes que se acham superiores por não caminharem com a garrafa a tiracolo, junto ao corpo e sim por beberem seus vinhos baratos em imensas comemorações desnecessárias, arrogantes, como se fossem o cerne da sociedade. Ah! Que nobres suas intenções!, que bonitas suas conquistas!, que bela casa você tem aí, meu caro!, que formosa mulher tens! Como se estas palavras realmente significassem algo, mentecaptos. Não compreendo como aos vinte oito anos eu consiga enxergar algo que não consegues, ou talvez seja o contrario, talvez seja a verdade nas palavras que enxergas e que não posso fazê-lo que não compreendo. Mentecapto. Será? Serei eu o mentecapto por procurar a pulsação neste imenso corpo humano que se chama humanidade? Serei eu errôneo ao vagar a procurar por palavras, por gestos? Entro em um bar, aceno para o homem ao balcão e levanto a garrafa vazia que trago em mãos, mais uma, por favor.

Bárbara Luíza Krauss, 4 de abril de 2012.